O que é o Programa Pertencer USP?
É uma política institucional de requalificação dos espaços livres nos campi da USP, promovendo conexões entre pessoas, paisagens e saberes. O centro de vivência da ESALQ é uma ação piloto desse programa.
Projeto ESALQ – Programa Pertencer USP
Espaço de Convivência e Pertencimento | Campus Luiz de Queiroz | Piracicaba, SP
Programa
Programa Pertencer USP – Requalificação Socioambiental dos Campi Universitários
Tipologia
Espaço de Convivência, Estudo e Integração
Estratégias
Ventilação cruzada, sombreamento ripado, pisos drenantes e integração com a vegetação existente
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Recintos para o imprevisível – arquitetura do amparo e do acolhimento
O Programa Pertencer é uma política institucional da Universidade de São Paulo voltada à requalificação de espaços livres nos campi universitários. A iniciativa busca promover conexões entre pessoas, paisagens e saberes, fortalecendo os vínculos institucionais por meio do espaço público, da paisagem e da escuta ativa da comunidade universitária.
Mais do que uma intervenção física, o Programa Pertencer materializa o compromisso da universidade com o bem-estar, a sustentabilidade e o sentimento de pertencimento de estudantes, professores e visitantes. É uma política de cuidado que reconhece o campus como território de permanência, encontro e transformação.
Este projeto na ESALQ é uma das ações piloto do programa, que já se expande por diversos campi da USP, consolidando uma nova forma de pensar e habitar o espaço universitário.
Localizado em uma área estratégica da ESALQ, o projeto transforma um espaço subutilizado em um verdadeiro centro de convivência, estudo e integração. O terreno apresenta leve declive e vegetação significativa, com árvores de grande porte que conferem identidade e qualidade ambiental ao local.
A ESALQ, com seu perfil rural-acadêmico característico, demandava um espaço que dialogasse com essa ambiência específica: um lugar onde a natureza, o conhecimento e a convivência pudessem se encontrar de forma orgânica e respeitosa.
O desafio era criar um ambiente que acolhesse a diversidade de usos e usuários — desde quem busca concentração para estudar até quem precisa apenas de uma sombra para respirar entre uma aula e outra — sem perder de vista os princípios de sustentabilidade, acessibilidade e integração com a paisagem existente.
O projeto não se impõe como um objeto fechado. Ele se organiza como um sistema aberto, fragmentado, que acolhe, respeita, enquadra e sugere. O gesto arquitetônico aqui é silencioso, mas radical.
Na chegada, uma viga preta em balanço — austera, horizontal, precisa — não impõe hierarquias. Ela enquadra a paisagem e o edifício histórico ao fundo, não como moldura de poder, mas como gesto de reverência.
Ali começa a arquitetura. A viga não apenas cobre: ela guia o olhar, orienta o corpo, oferece abrigo e direção. A entrada não é um pórtico simbólico, é um alinhamento ético: ela diz "siga por aqui" com firmeza e gentileza, como um convite.
Ao atravessá-la, o visitante já pertence.
A composição se estrutura por recintos. Fragmentos de espaço, e não blocos de edificação. Como numa partitura aberta, cada vazio é uma pausa entre notas — espaços de respiração, espera, improviso.
Não se trata de função, mas de possibilidade.
O projeto se curva, se esgueira, se molda ao existente. Nenhuma árvore foi removida, nenhum platô artificializado. A água escorre por onde já escorria. A sombra cai onde já caía. O projeto não redesenha o território — colabora com ele.
Sob pérgolas de madeira generosas, o vazio assume protagonismo. É o coração do projeto — um lugar sem nome, como define o crítico Guilherme Wisnik a partir de Flávio Motta.
Não é sala, não é pátio, não é auditório. É um espaço em estado de espera, onde estudo, aula, show, contemplação, roda de conversa e repouso podem acontecer — ou não.
Essa ambiguidade não é omissão funcional. É um projeto social da forma, onde a sombra generosa oferece o palco para a vida se ensaiar como quiser. Ali, a arquitetura não dita o uso. Ela ampara a imprevisibilidade da vida, como desejava Paulo Mendes da Rocha.
É um recinto público com delicadeza privada. A cobertura não é apenas proteção: é um dispositivo de liberdade. Ela oferece abrigo, mas também revela o entorno. Suspensa, deixa o ar passar, deixa a luz filtrar, deixa a vida entrar.
De outro lado, como que em contraponto, o espaço da pausa. Nada de bancos formais ou ergonomias impostas. Ali o desenho é aberto ao corpo do usuário: senta-se como quiser, encosta-se onde puder, repousa-se quando precisar.
É um gesto generoso que questiona os modos de sentar, de parar, de estar junto. Um mobiliário que se deforma para caber no gesto de quem chega — criança, estudante, idoso, professor.
Como nos espaços de Lina Bo Bardi, ou nos fragmentos habitáveis de Hélio Oiticica, aqui o corpo é livre. Ali, o programa se dissolve em paisagem habitável, onde o repouso é livre, o estar-junto é espontâneo.
É um mobiliário desprogramado, onde diferentes corpos e diferentes tempos compartilham o mesmo chão.
O declive natural do terreno foi aproveitado para criar um anfiteatro ao ar livre, ideal para atividades culturais, rodas de conversa e aulas abertas. É um espaço escavado e acolhedor, que usa o relevo como parte do projeto arquitetônico e paisagístico.
Essa solução valoriza o terreno original, minimiza cortes e aterros e contribui para o conforto e acessibilidade, tornando o desnível parte da experiência espacial.
Espreguiçadeiras ao ar livre, distribuídas estrategicamente sob as árvores, oferecem espaços de leitura e descanso. São pequenos recantos de silêncio e contemplação, onde o ritmo acelerado do cotidiano universitário pode encontrar respiro.
Nos bastidores, os apoios: copa, sanitários (inclusive PNE), área técnica e bicicletário. Tudo está presente, mas sem espetáculo. A técnica não aparece porque não precisa se exibir. Está onde deve estar: a serviço da experiência, permitindo que a arquitetura seja o que deve ser — discreta, útil, generosa.
O projeto está implantado com a face principal voltada para o norte, o que é extremamente favorável em termos de conforto ambiental no hemisfério sul. Essa orientação permite o aproveitamento ideal da luz natural difusa, ao mesmo tempo em que evita a incidência solar direta agressiva nas laterais leste e oeste, que normalmente causam superaquecimento.
Pontos positivos da orientação norte:
As pérgolas com cobertura ripada foram estrategicamente posicionadas para filtrar a luz solar e criar zonas de transição entre sol e sombra, valorizando a experiência do percurso e permanência.
A implantação aberta e fragmentada dos módulos permite a passagem cruzada dos ventos predominantes, especialmente os que vêm de sudeste/leste — muito comuns na região de Piracicaba.
A ventilação natural é reforçada por:
A disposição do mobiliário e a alternância entre áreas abertas e sombreadas garantem que o espaço seja confortável mesmo em dias quentes, eliminando a necessidade de climatização artificial.
O terreno possui declive suave, e o projeto soube tirar proveito dessa condição natural:
Essa solução valoriza o terreno original, minimiza movimentos de terra e contribui para o conforto e acessibilidade universal.
O projeto estabelece uma relação respeitosa com o entorno natural da ESALQ. As árvores existentes foram mantidas e novas espécies nativas foram introduzidas estrategicamente. Isso oferece:
A vegetação não é ornamento: é parte estruturante do projeto, protagonista visual e funcional.
A proposta valoriza o uso de materiais sustentáveis e duráveis:
A paleta material é honesta, sem fetiche: madeira, concreto, metal, vegetação. Tectônica da realidade, sensível e sonhadora.
A iluminação noturna foi pensada para ser aconchegante e funcional, garantindo segurança e continuidade de uso em horários estendidos, sem criar poluição luminosa ou competir com a paisagem. A luz é pontual, baixa, direcionada — valoriza a sombra tanto quanto a claridade.
O projeto foi concebido para funcionar sem sistemas mecânicos de climatização. O conforto térmico é resultado direto das estratégias passivas de ventilação, sombreamento e uso da vegetação.
Estratégias integradas:
O resultado é um espaço que respira, que se ajusta às condições climáticas de forma natural, que oferece conforto sem dependência tecnológica pesada.
accessibleTodas as áreas do projeto são acessíveis. Os desníveis do terreno foram tratados com rampas suaves, integradas à paisagem. Os sanitários atendem às normas de acessibilidade universal (PNE). Os espaços de convivência e estudo são inclusivos por princípio — não há barreiras físicas, visuais ou simbólicas.
verified_userO design universal não é aqui uma obrigação normativa, mas um compromisso ético: todos devem poder usar, habitar, permanecer.
A paleta é mínima, quase calada: o preto da viga, o branco das construções, o verde da vegetação.
Nada compete. Tudo reconcilia.
O preto da viga e o branco das edificações não competem com o verde. Pelo contrário: realçam a vegetação, tornam-na protagonista. A cor aqui não é expressão formal arbitrária — é escolha conceitual que dá protagonismo à natureza.
A vegetação é protagonista. O solo, respeitado. O ar, convocado.
Os materiais são simples, duráveis e sensíveis: madeira, concreto, piso drenante, metal. Não há espetáculo formal. Há dignidade tectônica, como defende o arquiteto Gustavo Utrabo: arquitetura que nasce da realidade, mas aponta para o sonho.
Este projeto é mais que uma construção: é uma ferramenta pedagógica e simbólica. Ele expressa o compromisso da universidade com o bem-estar da comunidade acadêmica, com o cuidado com o espaço público e com o direito de pertencer.
É arquitetura que ensina pelo exemplo:
A planta aberta e os elementos modulares permitem apropriações diversas ao longo do dia. É coworking, praça, varanda, sala de aula, palco e refúgio ao mesmo tempo.
A modularidade aqui não é repetição industrial, mas sistema flexível que se adapta aos usos imprevistos. O projeto entende que a vida universitária é plural, intensa, mutante — e oferece estrutura suficiente sem engessar as possibilidades.
Tudo em diálogo com a ambiência rural da ESALQ, sem perder a linguagem contemporânea. A tradição e a inovação não são opostas: convivem, se alimentam, se reforçam.
Há projetos que não reivindicam protagonismo. Não se impõem, não clamam por batismo. Preferem o anonimato do gesto discreto, a potência da sombra, o abrigo do silêncio.
Esse é um deles.
O projeto implantado na ESALQ/USP Piracicaba, no âmbito do Programa Pertencer, não organiza apenas funções — ele propõe uma ética do espaço.
Não é um objeto acabado, mas um sistema aberto que acolhe, respeita, enquadra e sugere. A arquitetura aqui escuta, acompanha, ampara. Como queria Paulo Mendes da Rocha, não é para ser obedecida, mas vivida.
O terreno, em suave declive, não é vencido — é acolhido. A implantação se curva, se adapta, se molda ao existente. Nenhuma árvore foi removida, nenhum platô artificializado.
A água escorre por onde já escorria. A sombra cai onde já caía. O projeto não redesenha o território — colabora com ele.
O norte solar banha os espaços com luz generosa e difusa, enquanto os ventos cruzados de leste-sudeste são recebidos por frestas, vãos e recuos.
A sombra aqui não é ausência de luz: é qualidade de permanência.
Na chegada, uma viga preta em balanço, tensa e contida, marca o início do percurso.
Não é um pórtico retórico, mas um alinhamento ético. Ela não impõe hierarquias — enquadra a paisagem, reconhece o edifício histórico ao fundo, orienta o olhar com respeito.
Esse gesto simples, porém preciso, já educa o corpo. Ele diz "siga por aqui", com a firmeza de quem propõe, e a delicadeza de quem acolhe.
Ao atravessá-la, o visitante já pertence.
Sob pérgolas de madeira, o vazio assume protagonismo. É o coração do projeto — um lugar sem nome, como define Wisnik a partir de Flávio Motta.
Não é sala, pátio, ou auditório. É espaço em estado de espera, onde estudo, aula, show, contemplação e repouso podem acontecer — ou não.
Essa ambiguidade é potência, não omissão. É arquitetura que ampara o imprevisível, como desejava Paulo.
A sombra generosa — essa sombra imensurável, como escreveu Gustavo Utrabo — não abriga um programa, abriga a vida.
Este não é um projeto para impressionar de imediato. Ele não posa para fotografia.
É arquitetura para quem volta, para quem fica, para quem usa.
E quem o faz, percebe que ali tudo foi pensado: o sol, o vento, a água, o corpo.
Mas, mais do que isso, percebe que há silêncio suficiente para que cada um preencha o espaço com sua própria história.
Conceito: Recintos para o imprevisível – arquitetura do amparo e do acolhimento
Projeto: DOA Estúdio e Vertentes Arquitetura (@vertentes.arquitetura)
Direção: Adriano Couto e Diego Giovani Bonifácio
Programa: Programa Pertencer USP
Instituição: ESALQ – Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz | Universidade de São Paulo
Fotografia: DOA Estúdio e Max Eduardo Camargo (@mm4xm)
Ano: 2023
Localização: Piracicaba, São Paulo, Brasil
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É uma política institucional de requalificação dos espaços livres nos campi da USP, promovendo conexões entre pessoas, paisagens e saberes. O centro de vivência da ESALQ é uma ação piloto desse programa.
Implantação respeitando árvores existentes, pisos permeáveis, jardins drenantes, ventilação cruzada e sombreamento ripado reduzem a necessidade de climatização artificial.
A organização por recintos permite múltiplos usos e apropriações sem impor um único programa, ampliando o repertório de encontros e experiências no espaço público.