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Imaginary Pragmatics

Madri, Espanha - 2015

Archiprix International Workshop

Ferramentas para uma Imaginação Urbana Radical


Território

2.337,53 ha de vazios urbanos mapeados em Madri

Método

Imagens especulativas sustentadas por dados concretos

Cenários

Paisagem Aquática · Floresta · Montanha


[ Explorar cenários ]

Apresentação

Madri carrega uma herança silenciosa: milhares de hectares onde a cidade oficial interrompeu sua própria narrativa.

Área mapeada
2.337,53 ha
Vazios urbanos distribuídos pela cidade.
Eixo principal
O'Donnell
Avda. Daroca, Coslada e Canillejas.
Estudo de caso
Moratalaz
Parque O'Donnell, com 80 m de desnível.
Programa
Archiprix
International Workshop, março-maio de 2015.

Tese

A ausência como recurso

Um projeto de democracia radical deveria preservar o poder da imaginação radical: a capacidade para a utopia, para pensar o Outro. Ernesto Laclau e Chantal Mouffe, 1991

O projeto Imaginary Pragmatics propõe outra leitura para os terrenos baldios de Madri. Desenvolvido em 2015 no âmbito do Archiprix International Workshop, reúne uma equipe de arquitetos internacionais sob a direção de Mª Auxiliadora Gálvez para investigar esses territórios residuais não como problema a resolver, mas como reservatórios de biodiversidade, de água, de imaginação e de práticas espaciais ainda por inventar.

Para entender o que o projeto propõe, é preciso primeiro entender o que vê - e a maioria das pessoas não vê. Os terrenos baldios urbanos costumam ser percebidos como ausências: espaços que deveriam ser outra coisa. Mas o geógrafo francês Gilles Clément os nomeia de outro modo: terceira paisagem.

São os interstícios - nem cultivados, nem abandonados no sentido estrito - onde a natureza retoma seu próprio ritmo sem interferência humana. São os lugares que a cidade esquece, e é exatamente por isso que se tornam os mais ricos em termos ecológicos e simbólicos.

Mª Auxiliadora Gálvez desenvolveu essa intuição de forma rigorosa em seu artigo "Actualizaciones de la Ciudad Múltiple" (Madri, 2012), rastreando uma genealogia que vai da cidade-jardim de Falkenberg de Bruno Taut, em Berlim, até a taxonomia de Edward T. Hall sobre espaço fixo, semifixo e informal. O argumento central é que os terrenos baldios sempre foram o arquivo vivo das práticas espaciais mais inventivas da cidade: o lugar onde o habitar ainda não foi codificado, onde a vida urbana se reinventa à margem das normas.

É nesse território teórico que o Imaginary Pragmatics se instala. A rede de terrenos interligados ao longo das ruas O'Donnell, Avda. Daroca, Coslada e Canillejas não é, para o projeto, um problema fundiário - é um laboratório.

Mapa e leitura territorial dos vazios urbanos de Madri no projeto Imaginary Pragmatics
Leitura territorial dos vazios urbanos de Madri.

O projeto propõe um conceito operativo chamado urbanismo middle-out - uma alternativa simultânea ao planejamento top-down, imposto pelos governos, e às iniciativas puramente bottom-up, que emergem espontaneamente das comunidades.

Nessa posição intermediária, o arquiteto não decide nem apenas executa: medeia. Seu papel é produzir visualizações - imagens coletivas poderosas o suficiente para que os cidadãos consigam projetar-se em futuros alternativos e, ao fazê-lo, reivindicá-los.

A imagem não é ilustração de uma proposta técnica; a imagem é a proposta política. Isso tem uma consequência metodológica importante: os dados precisam ser reais. Se a imagem produzida não puder ser defendida numericamente, ela perde sua força de intervenção.

Daí o nome do projeto: as soluções são imaginárias - no sentido de que não existem ainda, e de que requerem imaginação para existir - mas se baseiam em dados concretos, mensuráveis, verificáveis. Imaginary Pragmatics produz imagens poderosas propondo soluções imaginárias baseadas em dados duros.

Método

Utopia com conta

Imagens poderosas propondo soluções imaginárias baseadas em dados duros.

Provas de escala

Água
20%

Com 20% da rede de terrenos, o projeto estima tratar 100% da água residual anual de Madri usando superfícies com macrófitas.

Carbono
24.997tn

Fixação anual estimada de CO2 para uma rede de vegetações combinadas: coníferas, folhosas, matagal denso e pastagem.

Alimento
300ha

Área capaz de produzir 20% dos alimentos necessários para Moratalaz, aproveitando resíduos orgânicos e topografia.

Dados como matéria de projeto

A tabela virou campo operacional

Cada número funciona como uma peça de projeto: água, carbono, resíduo, alimento, desnível e tempo deixam de ser anexos técnicos e passam a organizar a imaginação urbana.

2.337,53 haÁrea total da rede de terrenos baldios de Madri.
O'Donnell · Daroca · Coslada · CanillejasEixo principal de terrenos interligados.
80 m de desnívelTopografia do terreno O'Donnell, entre ponto alto e ponto baixo.
2 m² = 1 habitante/anoFórmula de depuração com superfície de água e macrófitas.
20% = 100%Com 20% dos terrenos, 100% da água residual de Madri poderia ser tratada.
11% = 30%Com 11% dos terrenos, 30% da água agrícola da cidade.
6,6 milhões L/ha/anoDemanda de água estimada para 1 hectare de agricultura.
1,6 bilhão L/anoDemanda estimada para 259,7 hectares de agricultura.
1,24 bilhão L/anoPotencial anual associado aos storm tanks de chuva.
1,15 bilhão L/anoPotencial anual associado aos coletores urbanos.
9,01 tn CO2/ha/anoAbsorção estimada para floresta de coníferas.
13,82 tn CO2/ha/anoAbsorção estimada para floresta folhosa.
8,80 tn CO2/ha/anoAbsorção estimada para matagal denso.
7,24 tn CO2/ha/anoAbsorção estimada para pastagem.
24.997,55 tn CO2/anoTotal estimado de fixação anual da composição vegetal proposta.
5,8 tn CO2/hab/anoEmissão anual de Madri por habitante, usada como contexto.
6 milhões tn/anoResíduos orgânicos disponíveis em Madri para criar nova topografia.
300 haÁrea proposta para o cenário Montanha no distrito de Moratalaz.
1,6°C a cada 200-250 mVariação climática associada à mudança de altitude.
Ervilha, açafrão, alho e arrozCultivos propostos para a topografia produtiva.
20% de MoratalazPopulação local potencialmente atendida pela produção alimentar.
30% agrícolaComposição do terreno: sistema agrícola integrado.
25% inundação controladaComposição do terreno: áreas de retenção e água.
45% floresta espontâneaComposição do terreno: vegetação nativa e espontânea.

Três cenários

Paisagem Aquática

O primeiro cenário propõe a transformação dos terrenos baldios em uma rede de paisagens aquáticas para depuração e armazenamento de água urbana.

A base científica é direta: 2m² de superfície de água com plantação de macrófitas são suficientes para depurar a água residual produzida por um habitante. A rede total de terrenos baldios de Madri tem 2.337,53 hectares. Com apenas 20% dessa área, seria possível tratar 100% da água residual da cidade anualmente. Com 11%, 30% de toda a água agrícola necessária.

O cenário não propõe apenas infraestrutura hídrica. Propõe uma transformação radical do metabolismo urbano: ao existir, a rede aquática aumentaria a biodiversidade, elevaria a umidade relativa do ar, criaria novos ecossistemas e mudaria a relação dos habitantes com a água - que deixaria de ser um sistema invisível sob o asfalto para tornar-se paisagem pública e viva.

A visualização produzida pela equipe mostra Madri a partir de um terreno alagado: windsurf, patos, macrófitas, e ao fundo as Quatro Torres e a Sierra de Guadarrama com neve. Não é fantasia - é a mesma cidade, com outra camada de realidade ativada.

Depuração 2 m² = 1 habitante/ano Superfície aquática plantada com macrófitas.
Rede 20% = 100% Água residual de Madri tratada anualmente.
Waterscape, paisagem aquática com macrófitas, patos e skyline de Madri
Água como infraestrutura visível e paisagem pública.

Floresta

O segundo cenário é o mais radical na sua simplicidade: não fazer nada.

Se os terrenos baldios da rede forem deixados intocados por 100 anos, uma grande floresta crescerá espontaneamente. A vegetação se estabelecerá por sucessão ecológica natural, sem qualquer intervenção humana. O projeto calcula a absorção de CO2 por tipo de vegetação: floresta de coníferas, floresta folhosa, matagal denso e pastagem.

A rede completa, com a combinação proposta de vegetações - 20% coníferas, 40% folhosas, 30% matagal denso e 10% pastagem -, fixaria cerca de 24.997,55 tn CO2/ano, o equivalente a 0,13% do total produzido por Madri. É um número pequeno em termos absolutos, mas o cenário propõe algo além da conta: o que significa para uma cidade permitir que parte de seu território se torne floresta?

O cenário Floresta não é uma solução climática isolada. É uma declaração sobre o tempo - sobre a capacidade da cidade de abrir mão do controle sobre parte do seu território e esperar.

Tempo 100 anos Sucessão ecológica sem intervenção humana.
Composição 40% folhosas 20% coníferas, 30% matagal, 10% pastagem.
Forest, cenário de floresta espontânea sobre os vazios urbanos de Madri
Não intervir como decisão urbana ativa.

Montanha

O terceiro cenário parte de um dado que poderia parecer apenas um problema logístico: Madri produz 6 milhões de toneladas de resíduos orgânicos por ano. O projeto os transforma em matéria-prima para criar nova topografia.

Usando esses resíduos para modelar o relevo dos terrenos baldios, o projeto propõe a criação de montanhas artificiais - terraços agrícolas que aproveitam o desnível natural do terreno de 80 metros para criar microclimas diferenciados. A relação entre altitude e temperatura é direta: a cada 200-250m de variação de altitude, a temperatura muda 1,6°C.

A proposta para o distrito de Moratalaz demonstra que 300 hectares seriam suficientes para produzir 20% dos alimentos necessários para a população local, com quatro cultivos principais: ervilha, açafrão, alho e arroz. A composição do terreno é de 30% sistema agrícola integrado, 25% áreas de inundação controlada e 45% floresta nativa e espontânea.

A visualização mais memorável do cenário é feita a partir de um helicóptero: no primeiro plano, terraços dourados de arroz em curvas de nível precisas; ao fundo, o skyline de Madri. A imagem não separa natureza e cidade - as sobrepõe.

Matéria 6 milhões tn/ano Resíduos orgânicos como material topográfico.
Cultivos Ervilha, açafrão, alho, arroz Produção organizada por variação de altitude.
Mountain, terraços agrícolas artificiais sobre os terrenos baldios de Moratalaz
Topografia artificial como sistema agrícola urbano.

O'Donnell

A infraestrutura que já existe

O projeto concentra seu estudo de caso no terreno do parque O'Donnell, no distrito de Moratalaz - um espaço que o próprio governo municipal já comparou ao Parque del Retiro em termos de potencial.

O que o projeto encontra no terreno é revelador. Sem qualquer intervenção institucional, os moradores já criaram uma infraestrutura informal completa: lavatórios públicos temporários, estruturas agrícolas autoconstruídas, rede de trilhas e caminhos informais, áreas de estacionamento para bicicletas, abrigos temporários e espaços de convivência, além de sistemas subterrâneos de captação e armazenamento de água.

Esta infraestrutura existe porque as pessoas precisam dela e o Estado não a ofereceu. Ela demonstra, de forma concreta, que a capacidade de transformação urbana já está presente no corpo da cidade - não precisa ser importada de fora, precisa ser reconhecida, amplificada e tornada permanente.

O terreno tem uma topografia acidentada, com desnível de 80 metros entre o ponto mais alto e o mais baixo - herança direta das obras paralisadas. O projeto transforma esse obstáculo aparente em recurso: os desníveis tornam-se terraços aquáticos sazonais, sistemas de drenagem gravitacional, pontos de observação da paisagem urbana.

Infraestrutura informal encontrada no terreno O'Donnell em Moratalaz
Práticas informais como evidência de demanda urbana real.

O Imaginary Pragmatics não se encerra nas visualizações. O projeto inclui uma dimensão de engajamento cidadão que é tão constitutiva quanto os dados técnicos.

A equipe produziu cartões postais com as visualizações dos três cenários - paisagem aquática, floresta e montanha - e os distribuiu na cidade com um convite: coloque sua ideia no papel. Os cartões podiam ser endereçados ao prefeito. Uma página no Facebook, Ecosystem Network, documentava o processo e ampliava o alcance.

No final da apresentação pública, a equipe narrou uma história: dois carros pretos chegam a um terreno baldio. Um acordo privado é firmado. O terreno é cercado. Câmeras são instaladas. Uma placa diz: "Este lugar está protegido." E então a questão: qual é a diferença entre uma piscina e um espaço vazio? Qual é a diferença entre um arranha-céu e um pedaço de terra vazio?

A resposta implícita é que não há diferença intrínseca - apenas diferença de imaginação, de poder e de narrativa. O projeto termina com uma provocação: agora é com você, acompanhada de uma imagem do tríptico de Hieronymus Bosch, O Jardim das Delícias, com o skyline de Madri inserido no painel central.

Engajamento

A imagem como reivindicação

Carrossel

Imagens da apresentação

Seleção das imagens originais do Ecosystem Network e registros do workshop, mantendo o material visual do projeto como parte central da narrativa.

Waterscape, cenário aquático para os terrenos baldios de Madri
Forest, cenário de floresta espontânea para os vazios urbanos
Mountain, terraços agrícolas artificiais em Madri
Mapa de leitura territorial dos terrenos baldios de Madri
Visualização especulativa do projeto Imaginary Pragmatics
Imagem da apresentação Ecosystem Network do projeto Imaginary Pragmatics
Infraestrutura informal no terreno O'Donnell em Moratalaz
Postais dos três cenários: waterscape, forest e mountain
O Jardim das Delícias com skyline de Madri no painel central
Equipe segurando visualização do projeto no terreno
Equipe internacional do workshop Imaginary Pragmatics em Madri

Vídeos

Workshop Archiprix International 2015.
Apresentação final no Concurso Archiprix - UPM.

FAQ

Perguntas frequentes

O que é Imaginary Pragmatics?

É um projeto de urbanismo especulativo desenvolvido no Archiprix International Workshop 2015, em Madri, para imaginar futuros verificáveis para os terrenos baldios da cidade.

O que significa urbanismo middle-out?

É a posição do arquiteto como mediador entre o planejamento de governo e a ação espontânea das comunidades, usando visualizações como ferramenta política.

Por que misturar utopia e dados?

Porque a imagem especulativa só ganha força pública quando pode ser defendida numericamente. O projeto evita tanto a fantasia solta quanto a tecnocracia sem imaginação.

Os três cenários são excludentes?

Não. Paisagem Aquática, Floresta e Montanha funcionam como temporalidades complementares: água como infraestrutura imediata, floresta como espera ativa e montanha como topografia produtiva.

Onde fica o estudo de caso?

No parque O'Donnell, em Moratalaz, dentro da rede O'Donnell, Avda. Daroca, Coslada e Canillejas. O terreno tem 80 m de desnível e práticas informais já existentes.

Qual é a dimensão política do projeto?

As imagens foram transformadas em cartões postais e convites à reivindicação cidadã. O projeto trata o vazio urbano como disputa de narrativa, poder e imaginação.

Créditos

Equipe e referências

Projeto desenvolvido no Archiprix International Workshop em Madri, de março a maio de 2015, sob direção de Mª Auxiliadora Gálvez Pérez, com colaboração de Alejandra Salvador Camarmo e assessoria de Oscar Miravalles.

Referências bibliográficas: Ernesto Laclau, Chantal Mouffe, Gilles Clément, Mª Auxiliadora Gálvez Pérez, Edward T. Hall, Michel de Certeau, Bruno Taut, Oswald Mathias Ungers, Rem Koolhaas e William Forsythe.

Colaboradora
Alejandra Salvador Camarmo
Assessor
Oscar Miravalles
Participante
Participante
Participante
Participante
Participante
Arno Wachtler

Síntese

Agora é com você

Imaginary Pragmatics não entrega um plano fechado. Entrega uma ferramenta de disputa: olhar para o vazio e perguntar que futuro ainda pode ser reivindicado ali.

Demais Trabalhos

URBANISMO INSTITUCIONAL
ESALQ USP