UMA FARMÁCIA EM CADA ESQUINA
Existe uma pergunta que ninguém faz em voz alta, mas todo mundo pensa quando passa pela mesma avenida pela terceira vez no dia e se depara, novamente, com a fachada iluminada de uma Droga Raia ou de uma Drogasil. A pergunta é simples, quase ingênua, e por isso mesmo é a melhor pergunta do mundo:
por que tem uma farmácia em cada esquina?
A alucinação
que não era
Devo dizer que essa pergunta me ocorreu, pela primeira vez, com a força de uma revelação, numa tarde em que eu saía de uma reunião em São Paulo. Olhei para a direita: farmácia. Olhei para a esquerda: farmácia. Fechei os olhos e abri: farmácia. Pensei que fosse uma alucinação. Não era.
E então comecei a me fazer a segunda pergunta, que é a que ninguém consegue responder na primeira tentativa: se tem tanta concorrência, o lucro deve ser obsceno, certo? É preciso que seja, porque do contrário como se explica a proliferação? Como se justifica a esquina nobre, o aluguel caro, as centenas de funcionários de jaleco branco, as câmeras, o ar-condicionado que vaza pela porta automática mesmo no inverno?
A resposta, como quase tudo que vale a pena saber, é contraintuitiva.
A resposta, como quase tudo que vale a pena saber, é contraintuitiva.
O oceano de dinheiro
e a fatia minúscula
Vamos olhar os números da maior rede do país, a RD Saúde — holding que controla a Droga Raia e a Drogasil, listada na bolsa com o código RADL3. No primeiro trimestre de 2026, a empresa faturou R$ 12,0 bilhões em receita bruta. Isso em três meses. Crescimento de 20,4% em relação ao mesmo período do ano anterior.
Doze bilhões. É um número tão grande que perde o sentido. É um número que faz a gente parar e pensar em zeros.
Mas aqui vem a virada.
Depois de pagar o custo dos produtos, as despesas com vendas, os salários de 75 mil funcionários, os custos administrativos e os impostos, sobra de lucro líquido ajustado: R$ 300 milhões. Que é muito dinheiro, claro. Exceto que, proporcionalmente à receita, representa uma margem líquida de 2,5%.
Traduzindo para a escala humana: a cada R$ 100,00 que você gasta naquele shampoo que não precisava comprar mas estava na promoção, a empresa fica com R$ 2,50. Dois reais e cinquenta centavos.
Bruno Paolinelli, que fez uma análise brilhante desse setor, descreveu isso com a precisão de quem entende de finanças: é um negócio de margens apertadas e escala brutal. A farmácia não é uma mina de ouro. É uma guerra de centavos travada em tempo integral, em milhares de frentes simultâneas, pela cidade inteira.
A farmácia não é uma mina de ouro. É uma guerra de centavos travada em tempo integral, em milhares de frentes simultâneas, pela cidade inteira.
O que nos leva de volta à esquina.
A esquina não é
um capricho
— é um cálculo
Existe uma lógica que a contabilidade não mostra sozinha. Ela mora na cidade.
Em urbanismo, há um conceito chamado permeabilidade visual — que é, em termos simples, o quanto de um espaço você consegue ver antes de decidir entrar nele. A esquina tem uma propriedade que o meio da quadra não tem: ela oferece visibilidade para dois fluxos diferentes de pedestres e veículos ao mesmo tempo. Quem vem do norte te vê. Quem vem do leste também te vê. Dobrou a audiência sem dobrar o custo.
Isso importa imensamente num negócio de margem de 2,5%, porque a farmácia pertence ao que os economistas chamam de bens de baixa ordem — jargão técnico para dizer que são produtos comprados com frequência, por impulso, por necessidade imediata. Você não planeja comprar um band-aid. Você passa em frente a uma farmácia e lembra que o estoque acabou. A esquina te captura antes que você perceba.
Há também o conceito urbanístico da Cidade de 15 Minutos — a ideia de que os serviços essenciais devem estar a menos de 15 minutos a pé de qualquer habitante. A RD Saúde levou isso a sério: seus dados mostram que 95% da população de classe A no Brasil vive a menos de 1,5 km de uma loja da rede. Isso não é acaso. Isso é geoprocessamento, análise de fluxo, modelagem demográfica. É uma decisão de engenharia espacial disfarçada de conveniência.
95% da população de classe A no Brasil vive a menos de 1,5 km de uma loja da rede. Isso não é acaso. É geoprocessamento.
O negócio imobiliário
que ninguém vê
Mas como se paga o aluguel de um ponto nobre, se a margem é tão fina?
Aqui entra um conceito do mercado imobiliário que merece ser explicado: o built-to-suit (construído sob medida, para um locatário específico). Nesse modelo, um investidor adquire o terreno, constrói o imóvel exatamente conforme as especificações da rede — leiaute, fachada, instalações elétricas, câmaras frias — e aluga por 15 ou 20 anos com contrato de longo prazo.
O resultado? A rede não imobiliza capital em tijolos. Ela direciona seus investimentos para onde importa: tecnologia, estoque e expansão.
Só no primeiro trimestre de 2026, a RD destinou R$ 117,6 milhões exclusivamente para abertura de novas lojas. A empresa encerrou o trimestre com 3.614 farmácias em operação — e abriu 323 novas nos últimos 12 meses, com guidance (projeção) de 330 a 350 aberturas brutas para o ano inteiro.
Pense nisso: mais de uma loja nova por dia. Todos os dias.
A farmácia vira, nesse processo, uma âncora urbana. Ela valoriza o ponto, gera fluxo permanente, garante previsibilidade de renda ao proprietário do imóvel, e ilumina a esquina às 22h de uma sexta-feira. Para a cidade, ela tem uma função quase de infraestrutura — como um poste ou uma parada de ônibus, mas climatizado e com cartão de crédito.
Taxa de erro nas aberturas
Em 323 lojas novas abertas nos últimos 12 meses, a taxa de erro na escolha de pontos foi de 0,3%. As demais fechamentos foram por otimização de portfólio, transferindo vendas para lojas vizinhas. Num negócio de margem de 2,5%, uma taxa de erro de 0,3% é quase poesia.
O número que
conta a história toda
A RD Saúde opera com 15 centros de distribuição espalhados pelo Brasil, com atendimento diário de mais de 80% das unidades e prazo de reposição de até 24 horas. Em abril de 2026, abriu o 16º centro, em Itupeva (SP), para sustentar a expansão.
O que o consumidor vê é a loja.
O que a empresa vê é uma malha.
E essa malha está crescendo com uma assertividade que os próprios números confirmam: a taxa de erro nas aberturas — farmácias abertas que precisaram ser encerradas — foi de apenas 0,3% das aberturas nos últimos 12 meses. Em 323 lojas novas, apenas uma em maturação foi encerrada por erro de avaliação. As demais foram fechadas por otimização de portfólio, transferindo vendas para lojas vizinhas e liberando ativos para realocação.
O que o consumidor vê é a loja. O que a empresa vê é uma malha.
Num negócio de margem de 2,5%, uma taxa de erro de 0,3% é quase poesia.
A loja que
não é mais uma loja
Mas a maior transformação da farmácia brasileira nas últimas décadas não está na esquina. Está no bolso de quem passa por ela.
No primeiro trimestre de 2026, a RD Saúde registrou R$ 3,6 bilhões em vendas pelos canais digitais — um crescimento de 66,4% em relação ao mesmo período do ano anterior. Isso representa 30,2% de tudo que a empresa vende. Quase um terço das receitas de uma rede de farmácias físicas vem de pedidos online.
E aqui está o dado que une a lógica financeira à lógica urbana de um jeito que poucos análises conseguem capturar: 97% dessas vendas digitais são entregues ou retiradas em até 60 minutos.
Sessenta minutos. Em qualquer cidade onde a rede opera.
Isso é possível porque a farmácia de esquina deixou de ser apenas uma loja. Ela é, simultaneamente, um ponto de venda, um hub logístico de última milha (minicentro de distribuição para o bairro) e um ponto de coleta. Quando você compra pelo aplicativo e o pedido chega em 40 minutos, ele não veio de um centro de distribuição na periferia industrial. Ele saiu daquela loja da esquina ali perto, separado por um funcionário que você viu repondo prateleiras meia hora antes.
A densidade física da rede — 3.614 pontos em 674 cidades — é exatamente o que sustenta a promessa digital de rapidez. O e-commerce não eliminou a loja física. Ele revelou o quanto uma loja bem posicionada vale.
O e-commerce não eliminou a loja física. Ele revelou o quanto uma loja bem posicionada vale.
Um jovem filmou a "Rua das Farmácias" no centro de Brasília. Repare na loja de baterias no meio das drogarias — "tá deslocado aqui, mas tá por aqui". É o deserto de diversidade de Jane Jacobs, em vídeo.
O lado que o
urbanismo precisa nomear
Seria desonesto, porém, terminar aqui — como se a proliferação de farmácias fosse apenas uma boa notícia.
Há um custo urbano que merece ser nomeado.
Quando uma rede com poder de pagamento muito superior ao do comércio local começa a ocupar sistematicamente as melhores esquinas de um bairro, ela produz o que Jane Jacobs — a maior urbanista do século XX — chamaria de deserto de diversidade. A padaria vai embora. A livraria de bairro não consegue competir pelo ponto. A sapataria do seu Antônio fecha. E no lugar de todos eles, surge mais uma fachada iluminada vendendo dipirona e protetor solar.
A cidade fica mais eficiente e menos viva.
A cidade fica mais eficiente e menos viva.
Isso não é culpa da farmácia. É uma consequência do modelo de expansão por escala, aplicado sobre um tecido urbano que não foi desenhado para receber um único setor em tamanha concentração. O conceito de gentrificação comercial — a substituição gradual do comércio local diversificado por grandes redes de varejo — se manifesta aqui de forma silenciosa e, muitas vezes, irreversível.
O urbanismo tem ferramentas
Zoneamento que incentiva diversidade de usos, políticas de proteção ao pequeno comércio de vizinhança, regulação das densidades comerciais por setor. Mas essas ferramentas precisam ser usadas ativamente, antes que a esquina se torne uma decisão tomada por uma planilha financeira em São Paulo.
Então, farmácia
dá dinheiro?
Dá. Mas não porque a margem é farta.
O que os dados da RD Saúde mostram é que o varejo farmacêutico é um negócio de receita gigantesca e lucro proporcional pequeno. O EBITDA ajustado (resultado operacional antes de impostos, depreciação e amortização) foi de R$ 821 milhões no trimestre — crescimento de 31,7% —, mas a margem EBITDA é de apenas 6,9%. O lucro líquido ajustado foi de R$ 300 milhões, com margem de 2,5%.
A lógica não é ganhar muito em cada produto. É girar estoque em escala industrial, em pontos escolhidos com precisão cirúrgica, transformando cada loja numa peça de uma engrenagem logística e imobiliária muito maior do que parece.
A farmácia de esquina não é um sintoma de ganância. É a expressão física de uma equação muito específica: margem baixa multiplicada por volume altíssimo, posicionada nos pontos urbanos de maior visibilidade, sustentada por uma malha digital que entrega em 60 minutos.
A farmácia de esquina não é um sintoma de ganância. É a expressão física de uma equação muito específica: margem baixa multiplicada por volume altíssimo.
Por isso tem farmácia em cada esquina.
Não é porque remédio vende muito — embora venda. É porque, num negócio onde cada centavo importa, a esquina certa pode ser a diferença entre uma loja que performa e uma que definha. E quando você tem 3.614 esquinas certas espalhadas por 674 cidades brasileiras, o que você tem não é uma rede de farmácias.
É uma cidade dentro da cidade.
Dados financeiros extraídos do Relatório de Resultados 1T26 da RD Saúde (Raia Drogasil S.A. – RADL3), divulgado em 5 de maio de 2026. A análise financeira tem inspiração no trabalho de Bruno Paolinelli. A leitura urbana é responsabilidade do autor.
GLOSSÁRIO
Termos do mercado financeiro e urbanístico usados nesta análise.
- paymentsReceita bruta
- Total de vendas antes de qualquer desconto ou dedução.
- percentMargem líquida
- Percentual de lucro que sobra após todos os custos e impostos.
- account_balance_walletEBITDA
- Lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização; mede a geração de caixa operacional.
- constructionBuilt-to-suit
- Modelo em que o imóvel é construído sob medida para um locatário específico, com contrato de longo prazo.
- local_shippingLast-mile / última milha
- A etapa final da logística de entrega, do depósito até o cliente.
- trending_upGuidance
- Projeção ou previsão divulgada pela empresa ao mercado.
- storeCAPEX
- Investimento em ativos físicos, como abertura de novas lojas.
- visibilityPermeabilidade visual
- Conceito urbanístico: o quanto de um espaço você consegue ver antes de decidir entrar nele.
- domain_disabledGentrificação comercial
- Substituição gradual do comércio local diversificado por grandes redes de varejo.
- directions_walkCidade de 15 Minutos
- Conceito urbanístico que defende que serviços essenciais devem estar a menos de 15 min a pé.
- hubHub logístico
- Centro de distribuição ou ponto de consolidação de carregamentos.
- show_chartMarket share
- Participação de mercado — fatia percentual das vendas de um setor que pertence a uma empresa.
DASHBOARD
RD Saúde — Resultados 1T26 · jan–mar 2026
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