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O BOM SAMARITANO

Design for Emergency / Semeando Ideias

Projeto

O Bom Samaritano

Ano

2020

Categoria

Design de Serviço
Design Social

Licença

Creative Commons BY 4.0

Reconhecimento

Selecionado
Design for Emergency
FAU-USP + MCB

Links

Design for Emergency
PDF do Projeto

Quando o desenho devolve gramática à cidade

Quando o mundo travou por causa da COVID-19, não nos faltaram "formas" novas; faltou sentido. Se design serve a alguma coisa, é a devolver nexo às coisas do cotidiano — organizar fluxos, dar consequência ao gesto mais simples, criar coerência entre quem precisa, quem pode ajudar e como isso acontece.

Foi exatamente isso que me comoveu no Desafio Internacional Semeando Ideias (FAU-USP + Museu da Casa Brasileira), etapa brasileira do Design for Emergency: uma convocação para propor soluções abertas e implementáveis, publicadas em Creative Commons para que qualquer pessoa ou instituição pudesse tirar do papel sem pedágio autoral.

"All seed ideas on this platform are published under the CC 4.0 International license… [and] can be developed by anyone, as long as authors are credited", afirma a página oficial do repositório de ideias, o Seed Ideas.

Vamos dizer assim: não há projeto sem cidade, e não há cidade sem uma gramática de relações. Quando o mundo parou, descobrimos que a gramática estava avariada—sujeito sem verbo, objeto sem preposição. É nesses hiatos que o desenho (design+projeto) tem de operar: religar o que o cotidiano rompeu, dar verbo a quem ficou imóvel, oferecer uma preposição — entre — onde antes só havia isolamento.

O Bom Samaritano - Design for Emergency

O Desafio

Entre 15 de junho e 15 de julho de 2020, FAU-USP e MCB receberam propostas e selecionaram vinte ideias brasileiras para a plataforma global. O Jornal da USP cravou o espírito: engajar designers para apresentarem soluções compartilhadas em plataforma aberta — isto é, ideias prontas para quem quisesse implementar, de prefeituras a coletivos locais.

A Revista PROJETO registrou o resultado: 40 propostas inscritas, 20 selecionadas, com destaque a critérios como aderência ao escopo, uso de dados, potencial de viabilidade e qualidade de representação.

No Brasil, essa etapa ficou conhecida como Semeando Ideias — "um design democrático, acessível, sustentável, voltado para a cidadania", como define o próprio site.

O que me interessa aqui é o método subentendido: menos desfile de objetos, mais engenharia de relações; menos "novidade", mais capacidade de circular na vida real.

A Proposição

A boa proposição costuma nascer de uma observação útil e modesta. Aqui, duas:

• Quem já está na rua (motoristas de aplicativo) mantém um fluxo mesmo no isolamento.

• Quem quer doar e quem precisa receber ficaram desconectados.

E há um partido narrativo que a apresentação do projeto resgata com precisão: a metáfora do caminhoneiro que não volta vazio. Se há mão-de-obra em deslocamento, por que não carregar também cuidado?

Esta é a essência do gesto projetual: aproveitar um meio existente e atribuir-lhe outro fim — sem o fetiche da "novidade". Não há heroísmo; há aproveitamento.

Sintaxe do Design

Atores: doador, motorista, centro, assistência social, destinatário.

Verbos: avisar, aceitar, recolher, triar, redistribuir, registrar.

Conjunções: se (aceitou), quando (chegar), então (entrega).

Preposições: entre doador e destinatário, com assistência social, para quem precisa primeiro, sem aglomeração.

Tempo verbal: presente do indicativo — não o futurismo do render, mas o agora auditável das métricas (quantos itens, em quanto tempo, para onde).

Este é o lugar em que o desenho vira protocolo.

A Parábola

O nome não é ornamento. Na narrativa bíblica, o samaritano "estando de viagem" vê, aproxima-se, cuida e leva à hospedaria. É um fluxo em movimento que se converte em cuidado.

• Motorista em rota ↔ "estando de viagem";

• Centro de triagem ↔ hospedaria (o lugar intermediário do cuidado);

• Licença aberta / replicar na cidade ↔ "Vá e faça o mesmo".

A parábola desloca a pergunta ("quem é o meu próximo?") para a ação ("seja o próximo"). O projeto faz o mesmo com design: desloca do "o que é um produto?" para "que gesto instituímos?".

Não se exige fé para entender; basta ética do próximo.

Como Funciona

"A solução, chamada O Bom Samaritano, viria por meio de um plugin para aplicativos de carona já disponíveis no mercado. O aplicativo avisaria o motorista mais próximo que alguém tem algo para doar."

A solução não ostenta "forma"; organiza passagem: um ponto final de doação no aplicativo, um centro de triagem (parceria pública), uma fila ética (assistência social) e regras de higiene (pandemia).

Organização de processo não é burocracia; é poética aplicada.

Infraestrutura Mínima

Que infra mínima precisamos? O repositório oficial de ideias deixa claro que tudo foi publicado em CC BY 4.0 para acelerar replicação (prefeituras, empresas, ONGs, desenvolvedores).

Plataformas de transporte: expor um endpoint para "pedido de doação".

Poder público/ONG: manter centro de recebimento e triagem.

Assistência social: curadoria de elegibilidade e fila.

Times técnicos: UI/UX do botão, mensagens de onboarding, relatórios.

Protocolos sanitários: EPIs, higienização, sem aglomeração.

Comunicabilidade: texto direto, sem heroísmo, com prestação de contas.

Com esse arranjo, "O Bom Samaritano" não cria novo atrito; absorve a malha que já existe. Isto é design público com baixo atrito.

Reconhecimento

A professora Denise Dantas, do Design da FAU-USP, definiu o trabalho assim:

"É o Bom Samaritano, que eu achei muito interessante. A proposta é um plugin para aplicativos de transporte, como Uber ou 99."

"Você aproveita o trajeto do motorista para que ele recolha a doação que você tem em casa e leve até alguém que está precisando. Não é um produto físico; é uma ideia com potencial de escalar rapidamente e promover transformação social pela conexão."

Em entrevista ao UOL:

"De Limeira (SP), o arquiteto urbanista e designer Diego Giovani Bonifácio, 33 anos, apresentou uma proposta para conectar pessoas em situação de vulnerabilidade social e doadores que não estão saindo de casa devido à pandemia."

A doação seria entregue por quem já está na rua durante a pandemia, caso dos motoristas de aplicativo.

O projeto conecta fluxos existentes com necessidades reais, sem criar nova infraestrutura.

Conclusão

Quando a pandemia nos encostou na parede, ficou nítido o que repito em sala: design não é ornamento do mundo — é o nexo que permite à vida continuar, mesmo sob pressão.

O que vale não é a "novidade" do objeto, mas a coerência entre problema, processo e uso.

A cidade volta a conjugar: eu dou, tu recolhes, ele triagem, nós entregamos, vós confiais, eles replicam.

O plural é projeto.

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